
Entenda o processo de US$ 1,4 bilhão que levou gigante da saúde ao colapso e o que realiza-se no Brasil em casos similares
O setor de saúde global testemunha, em 2024 e 2025, um dos episódios mais alarmantes da sua história recente. A Steward Health Care, que outrora ostentou o título de uma das maiores redes privadas de hospitais dos Estados Unidos, desmoronou sob o peso de uma gestão financeira temerária.
O colapso, que culminou em um calote bilionário, não exclusivamente fechou as portas de unidades vitais, mas deixou milhares de pacientes e médicos em uma situação de vulnerabilidade extrema.
O que parecia um modelo de sucesso impulsionado por grandes investimentos revelou-se, na verdade, um castelo de cartas sustentado por dívidas insustentáveis.
Com um rombo oficial de US$ 9,2 bilhões (aproximadamente R$ 45 bilhões), a rede forçou o governo americano a intervir para impedir uma catástrofe humanitária em vários estados.
O caso serve agora como o principal exemplo dos riscos que o capital especulativo disponibiliza quando assume o controle da gestão hospitalar.
O modelo “Sale-Leaseback”
Conforme a WBZ, a Steward Health Care construiu seu império através de uma manobra financeira conhecida como Sale-Leaseback.
O mecanismo funcionava de forma agressiva: a empresa vendia os edifícios de seus próprios hospitais para fundos imobiliários especializados, como o Medical Properties Trust (MPT), para conseguir dinheiro rápido.
Em seguida, a Steward alugava esses mesmos edifícios de volta para continuar operando.
Embora essa estratégia tenha gerado liquidez imediata para a compra de novas unidades, ela produziu uma armadilha fatal.
A rede tornou-se refém de aluguéis caríssimos e reajustes incessantes. Enquanto o caixa sangrava para pagar os investidores e distribuir dividendos milionários aos executivos, a manutenção básica dos hospitais ficava em segundo plano.
Pacientes no desespero:
Entre 2023 e 2024, a falta de capital atingiu o cotidiano dos 31 hospitais da rede. Relatórios investigativos e depoimentos de empregados descreveram um cenário de guerra:
- Falta de insumos: Médicos relataram a escassez de remédios básicos, luvas e até equipamentos de suporte à vida;
- Atrasos salariais: Profissionais de saúde ficaram semanas sem receber, resultando em demissões em massa e abandono de postos;
- Cancelamento de cirurgias: Procedimentos eletivos e emergenciais foram suspensos abruptamente por falta de pagamento a fornecedores de próteses e oxigênio.
O ápice do escândalo ocorreu em Massachusetts, onde a governadora Maura Healey precisou decretar a desapropriação emergencial de unidades, como o Saint Elizabeth’s Medical Center, para preservar que os cidadãos não ficasse sem atendimento básico.
Queda da cúpula e desacato ao Senado
A crise financeira transbordou para a esfera criminal.
No mês de setembro de 2024, o Dr. Ralph de la Torre, fundador e CEO da Steward, renunciou ao cargo depois de várias acusações de má gestão.
A situação piorou quando ele se recusou a prestar depoimento ao Senado dos Estados Unidos, resultando em um indiciamento por desacato criminal.
A recusa em explicar o destino dos bilhões de dólares desaparecidos impulsionou a revolta pública e acelerou o processo de liquidação da empresa.
Reestruturação e venda de ativos:
Já em 2025, o processo de falência sob o Capítulo 11 da lei americana (equivalente à recuperação judicial no Brasil) avançou para a fase de liquidação. O tribunal aprovou planos que incluem:
- Venda gradual: Alienação de unidades hospitalares para outros grupos de saúde na tentativa de ressarcir credores;
- Processos judiciais: Uso de recursos obtidos para processar ex-executivos por má conduta financeira;
- Fiscalização rígida: Novas leis estaduais agora exigem transparência contábil total de empresas de saúde, limitando a influência de fundos de investimento na gestão clínica.
Novidades do caso:
Conforme a Reuters, no mês de julho de 2025, juiz Christopher Lopez aprovou o plano de liquidação da Steward Health fundamentado em recursos provenientes de litígios.
A estratégia central da empresa consistiu em processar ex-executivos e sócios, como a Cerberus, com o objetivo de recuperar um montante superior a US$ 3 bilhões.
A viabilidade do plano foi sustentada através do fato de que a Steward precisa reaver exclusivamente 13% do valor total reivindicado nestes processos para quitar integralmente as despesas da falência.
O objetivo determinada para o pagamento total dos custos do Capítulo 11 é até meados de 2027.
Inclusive, durante o processo, os custos com assessoria jurídica foram elevados, com o escritório Weil, Gotshal & Manges a faturar mais de US$ 100 milhões.
O alvo principal das ações é o ex-CEO Ralph de la Torre, que conforme mencionamos acima, foi acusado de desviar ativos.
As autoridades já transferiram a maioria das unidades hospitalares para novos donos com o objetivo de preservar a continuidade do atendimento aos pacientes.
O que realiza-se quando um plano ou rede de saúde entra em falência no Brasil?
Embora o modelo americano seja diferente do brasileiro, o colapso da Steward gera reflexões por aqui.
Em suma, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) tem travas mais rígidas para impedir que beneficiários de planos de saúde fiquem desassistidos:
- Ou seja, se o seu plano de saúde entrar em regime de Direção Fiscal (pré-falência), a ANS obriga a operadora a ofertar a Portabilidade Especial de Carências.
Isso quer dizer que:
- Você pode mudar para um plano de outra empresa;
- Manter todos os seus prazos de carência já cumpridos, sem pagar nada a mais por isso
No Brasil, quando uma operadora apresenta insolvência, a ANS decreta a liquidação extrajudicial e coordena a transferência obrigatória dos clientes para outra operadora em até 90 dias.
Esse mecanismo de “direção fiscal” e “direção técnica” serve para impedir que o lucro dos investidores seja priorizado em detrimento da vida dos pacientes.
Calote de 9,5B: A falência de rede de saúde, com 31 hospitais, e beneficiários assustados em país .
